10 anos após cratera no Metrô de SP, casas têm rachaduras e famílias esperam indenização

Bióloga tem quarto interditado desde acidente que deixou 7 mortos em 2007. Outro morador entrou na Justiça após chão ceder e casa ter infiltrações.

Dez anos depois da maior tragédia em uma obra do metrô no país, a cratera aberta durante a construção da estação Pinheiros da Linha 4-Amarela do Metrô, na Zona Oeste de São Paulo, ainda há casas com problemas na região. Naquele dia, a terra cedeu, abrindo um enorme buraco e deixando 7 mortos.

A Justiça absolveu, em novembro de 2016, todos os responsáveis pela obra. Ainda falta indenizar quem teve a casa destruída após a abertura da cratera na rua Capri, em 12 de janeiro de 2007.

A bióloga Zelma Fernandes Marinho, que teve o quarto onde dormia com o marido interditado pela Defesa Civil há 10 anos, ainda não foi indenizada. O quarto continua interditado. A casa fica na rua Amaro Cavalheiro, em Pinheiros, a quase 500 metros da estação.

“A gente está praticamente separado. Ele está com problema cardíaco, teve um infarto. Ele dorme lá embaixo, eu durmo no quarto do fundo. Mas na maioria das vezes eu saio daqui e durmo fora porque não tem mais condições”, disse ela.

Na época do acidente, 55 imóveis foram interditados – 10 deles foram condenados e 3 precisaram ser demolidos. O Consórcio Via Amarela e o Metrô só se responsabilizaram por danos causados a moradias que ficam em um raio de 50 metros do centro da cratera, que não é o caso da bióloga.

A Defensoria Pública ajudou a costurar um acordo com 65 famílias que se enquadravam nesta regra. A maioria fechou acordo.

“O objetivo dos acordos que foram feitos era garantir o ressarcimento dos valores devidos, mas de forma rápida para que as famílias pudessem reconstruir suas vidas, virar efetivamente a página”, diz a defensora pública Renata Tibiryça.

Quatro famílias não aceitaram o valor da indenização. O corretor de imóveis Antônio Teixeira fez acordo por advogado particular. O prédio em que ele tinha um apartamento de 82 metros quadrados foi demolido e ele ficou um ano morando em um hotel, pago pela seguradora da obra. Quando a indenização saiu, não foi possível comprar um apartamento do mesmo padrão e, atualmente, ele mora em uma quitinete de 20 metros quadrados.

“Hoje eu pago aluguel, coisa que eu nunca fiz. Hoje eu pago aluguel e só posso morar aqui, sozinho! Porque minha família foi embora”, disse o corretor.

Casa ainda com rachaduras

Outro morador da região, José Roberto Romero, lembra que 4 meses antes do acidente estouraram uma dinamite na obra e o forro da cozinha dele caiu. “Parecia um terremoto. Houve uma nuvem tão grande que foi daqui da cozinha até a sala, de pó. Já vinha tendo fissura desde o começo da obra”, disse.

A cratera piorou a situação da casa, que até hoje tem escoras para segurar o teto. Em outro quarto há rachaduras enormes, infiltração e problemas na estrutura da casa e no telhado, que teve o foro furado. O chão também cedeu e está completamente inclinado.

Romero entrou na Justiça contra o Metrô e a sentença, publicada em 2016, condenou a Via Quatro e o Metrô a pagar o reparo das estruturas e uma indenização de R$ 78,8 mil por danos morais. Mas, até agora, nada foi feito ou pago.

Em nota, o Consórcio Via Amarela respondeu que não comenta processos judiciais em curso e que, após a tragédia, forneceu apoio aos familiares das vítimas e pagou indenizações.

Acidente

Na tragédia, há 10 anos, morreu o motorista Reinaldo Aparecido Leite, que dirigia a van que fazia a linha Casa Verde- Pinheiros e foi engolida quando a cratera abriu. Também morreram o cobrador Wescley Adriano da Silva e os passageiros Márcio Alambert e Valéria Alves Marmit.

O motorista de um caminhão que trabalhava na obra também morreu, Francisco Sabino Torres, ao ser engolido pela cratera. Também morreram no acidente a aposentada Abigail de Azevedo e o office-boy Cícero Augustino da Silva, que caminhavam pela rua na hora da tragédia.

Quatorze funcionários da Linha 4 e do Metrô se tornaram réus na Justiça mas, até hoje, ninguém foi condenado. Em 2016, o Tribunal de Justiça, ao rever o caso, manteve a absolvição dos acusados.

Na quarta-feira (11), o Ministério Público ingressou com recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para tentar ainda punir os responsáveis.

g1

12/01/2017