O que as dificuldades de Depay no Manchester nos dizem sobre o jogador moderno

Memphis Depay of Manchester United during the UEFA Europa League match at Old Trafford, Manchester. Picture date: October 20th, 2016. Pic Matt McNulty/Sportimage via PA Images

O relacionamento entre Memphis Depay e o Manchester United parece estar chegando ao fim. O meia-atacante holandês foi tão marginalizado por José Mourinho que tudo indica que, com uma oferta razoável, ele deixará o clube.

Mourinho tem uma grande influência em sua partida. Sempre que ele deixava de confiar num jovem jogador, no passado, acontecia uma separação. Romelu Lukaku é um excelente exemplo disso, e Kevin De Bruyne é outro; ambos os jogadores foram autorizados a deixar o Chelsea por causa de Mourinho, e esses dois casos têm sido usados para criticar a capacidade de Mourinho me tomar decisões, nos últimos anos.

Talvez, um dia, Depay seja outro exemplo. Ele é jovem demais para ser completamente descartado, e sua regressão no United pode ser decorrente simplesmente do enorme salto entre a Eredivisie e a Premier League. Uma mudança grande demais, cedo demais? Talvez.

Louis van Gaal trouxe Depay para o Old Trafford em 2015, mas o ex-jogador do PSV não conseguiu impressionar.

Os tempos estão mudando

Como jogadores aposentados costumam afirmar, o caminho entre as categorias de base e a equipe principal é relativamente fácil no esporte contemporâneo

Uma das discussões presentes no mundo do futebol atualmente está centrada no tratamento dos jogadores em desenvolvimento. Em alguns clubes, iniciativas foram criadas para atacar a cultura de direito que aflige muitas promessas atuais. Em alguns casos particulares, os salários receberam tetos e, em circunstâncias mais extremas, carros caros e outras extravagâncias foram proibidos.

As mudanças costumam ser superficiais e é improvável que criem alterações de longo prazo, mas pelo menos a contenção do ego finalmente se tornou parte da agenda de trabalho. Pode não ajudar muito, mas certamente não irá prejudicar.

O maior desafio, no entanto, será equipar futuras gerações com a capacidade de resolver problemas. Como jogadores aposentados costumam afirmar, o caminho entre as categorias de base e a equipe principal é relativamente fácil no esporte contemporâneo. A seleção literal continua impiedosa, é claro, mas a experiência emocional foi higienizada. Não existem mais os dias de cerimônias de iniciação cruel e bullying direcionado, pois os clubes estão mais conscientes de suas responsabilidades sociais do que nunca.

O fracasso da Inglaterra em 2016 levantou dúvidas (novamente) a respeito dos jovens do país estarem recebendo muito, cedo demais.

Mas se há um ponto negativo em tudo isso, ele está no efeito subsequente. Assim como códigos de conduta existem entre jogadores jovens e mais velhos, os treinadores também precisam respeitar os sentimentos e a sensibilidade de adolescentes impressionáveis. Em 10 ou 20 anos, as autobiografias não irão mais contar histórias de dificuldades no início de suas carreiras, e tirando uma ou outra decepção ocasional, os jogadores provavelmente serão incapazes de recordar momentos de adversidade.

O primeiro gosto da decepção

Em 2016, o arquétipo moderno é o de uma pessoa mais sensível, e talvez menos capaz de lidar com as críticas construtivas

Isso não é necessariamente positivo. Em diferentes entrevistas com Graham Hunter em 2016, Phil Neville e Steve McManaman falaram sobre suas experiências nas categorias de base do Manchester United e do Liverpool, respectivamente. O padrão técnico dos treinadores era, de acordo com cada um deles, importante na sua formação, mas eles também lembram que – embora às vezes fosse difícil de lidar – o tratamento duro que eles receberam foi uma parte essencial da sua educação emocional.

Ainda que em alguns casos este padrão tenha feito mais mal do que bem, ele preparou os jogadores para o mundo profissional e os tornou mais resilientes. Em 2016, o arquétipo moderno é o de uma pessoa mais sensível, e talvez menos capaz de lidar com as críticas construtivas.

McManaman acredita que suas experiências como um jovem jogador no Liverpool foram benéficas para a sua carreira.

Jovens jogadores chegam ao topo extremamente rápido. Nos três casos, Lukaku, De Bruyne e Depay foram considerados especiais desde muito novos, e todos foram contratados por clubes de destaque, por valores altos. O obstáculo que ocorreu nas três carreiras (Lukaku e De Bruyne no Chelsea, Depay no Manchester United) foi provavelmente o primeiro ponto em que eles encontraram qualquer tipo de resistência. Além de eventuais dificuldades encontradas na infância ou fora do esporte, esta foi provavelmente a primeira vez em que eles presenciaram o lado cruel do futebol.

Por tudo isso, não é demais sugerir que um fracasso relevante no início da carreira pode substituir alguns dos comportamentos que costumam surgir no esporte. Se algo consegue provocar a introspecção e levar alguém a alterar certos traços da personalidade, é este tipo de situação.

Peixes maiores, lago menor

Embora ainda seja imperfeito, provavelmente o fato de que o jogo de Lukaku melhorou desde que ele foi exposto a diferentes estilos de liderança, não é uma coincidência

Supostamente, uma das tensões entre Lukaku e Mourinho estava relacionada à tendência do primeiro ao estudo independente. Jogador ambicioso, o belga analisava atacantes que ele admirava na esperança de um dia ser como eles. Mourinho, bem ou mal, interpretava esta situação como uma oposição às suas instruções táticas; o português não é um técnico laissez-faire e não é conhecido por tolerar nada diferente da aderência total e completa às suas ordens.

Uma das primeiras decisões de Mourinho em sua segunda passagem pelo Stamford Bridge foi emprestar Lukaku ao Everton.

A capacidade de marcar gols de Lukaku é impressionante, mas enquanto sua habilidade de colocar a bola na rede raramente seja questionada, não podemos dizer o mesmo sobre seu estilo de jogo desordenado. Embora ainda seja imperfeito, provavelmente o fato de que o jogo de Lukaku melhorou desde que ele foi exposto a diferentes estilos de liderança, não é uma coincidência. Mourinho abre pouco espaço para negociações, e provavelmente era o tipo errado de técnico para um jovem altamente convencido de seu talento.

Poucas vezes na carreira o português dedicou tempo a desenvolver jogadores, preferindo comprá-los “prontos” pagando caro; sua tolerância para o amadurecimento e a confiança exagerada dos jovens é baixa. Por outro lado, Roberto Martinez tem uma personalidade mais conciliatória e é alguém com maior probabilidade de se adaptar e acalmar o ego de um jogador.

Martinez e o Everton deram a Lukaku a oportunidade de jogar regularmente, mas ele também se beneficiou de uma forma mais gentil de correção. Amolecido pela rejeição no Stamford Bridge, ele acabou se tornando um talento mais flexível e um jogador mais completo.

 

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21/01/2016